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QUINGOMA


PEQUENA HISTÓRIA DE QUINGOMA

Entrada da rua principal (Foto Andréa Mota)
Quingoma é uma antiga zona de engenho do recôncavo baiano, que está localizado a três km de Lauro de Freitas e possui aproximadamente 3.500 moradores que buscam o resgate de suas raízes, pois se reconhecem como remanescentes de quilombos, mas ainda não foram reconhecidos. Quingoma é uma etnia africana vinda em menor número para Bahia. Trabalhavam nas fazendas  e engenhos da freguesia de Santo Amaro de Ipitanga (hoje Lauro de Freitas) como escravos na produção de cana de açúcar nos séculos XVIII e XIX.
Na comunidade são enfrentados problemas com moradia, transporte, saneamento, telefonia e água encanada. Segundo informações de alguns moradores, a agua encanada não chega todos os dias e por isso os moradores ainda recorrem a poços e carros pipa. O acesso ao bairro é muito complicado pois o transporte alternativo de vans deixa muito a desejar.
As famílias mantém o cultivo de subsistencia e o que excede é vendido na feira do centro de Lauro de Freitas. Era comum no local muitas nascentes de rio, o grande rio Joanes já foi parte importante na vida dessas pessoas que pescavam e tinham o rio como lazer. Hoje com a invasão imobiliária o rio está poluído e a cada dia os moradores se vêem pressionados a venderem suas terras para imobiliárias que avançam com as suas construções. Parte das terras se transformaram em reserva dos índios Kariri Xocó que vivem há doze anos e recebem visitantes de escolas em datas marcadas.
Os moradores de Quingoma mantiveram as suas tradições através da oralidade, hoje buscam o resgate da sua cultura. O bairro possui casa de farinha,terreiros de candomblé e uma pequena capela que tem como padroeiro São José. Apesar de todas dificuldades que enfrentam o povo é muito alegre e tem do que se orgulhar : A sua cultura e união. O Samba de roda Renascer de Quingoma vem ganhando força e a adesão de todos moradores e muitas pessoas visitam a comunidade em busca da roda alegre de samba. Através da arte eles ganham força e se mostram, para conseguir o reconhecimento e as necessidades básicas de todo cidadão.
Texto: Andréa Mota

Capela de São José  (Foto Andréa Mota)

PRIMEIRO DIA DE VIVÊNCIA EM QUINGOMA

Aula na capela (foto Andréa Mota)
Fomos recebidos no primeiro dia por Raquel simpática moradora que foi nossa anfitriã durante todo o processo.Com ela conhecemos um pouco das histórias e personagens desse lugar e que vamos contar aos poucos, no entanto não podemos realizar nada naquele dia pois uma das matriarcas da comunidade tinha falecido, então voltamos no outro dia e começamos a nossa troca.
Quando as oficinas começaram as crianças e adolescentes foram chegando de mansinho, pingando, meio desconfiados, curiosos até encher o espaço  mas se entregaram as atividades e em pouco tempo, meninos e meninas acostumados a subir em árvores, tomar banho de rio, jogar bola e brincar de pique, aprenderam a andar de perna de pau e fazer malabares. Adolescentes,crianças e jovens mães com seus filhos de colo que de tempos em tempos paravam para mamar, não impediram que participassem. E saímos de lá nesse primeiro encontro com a certeza que seria uma ótima experiência.
Primeiro dia das pernas de pau (Foto Tiago Chaves)
Roda de apresentação (Foto Tiago Chaves)
Construção de malabares (Fotos Tiago Chaves)



ATÉ QUANDO?
Foto Andréa Mota
Até quando Os caminhos que levam a Quingoma serão assim?  Enquanto as autoridades não resolvem o povo vai sofrendo com o descaso. 

IMAGENS BUCÓLICAS
As aulas de técnicas circenses aconteciam aqui
Foto: Andréa Mota
E aulas teatro aconteciam aqui
Foto: Andréa Mota 
Aqui fazia parte do caminho
Foto: Andréa Mota
O sapo na capela, assistindo a aula e ao mesmo tempo rezando pro tempo ficar bom



 Nesse dia fez sol, acho que foi o único

Foto: Tiago Chaves


OS CAMINHOS DE QUINGOMA

 Foto Andréa Mota
A primeira visita a Quingoma foi marcada por uma intensa chuva, que impossibilitou de nós sequer descermos do carro. Era apenas uma visita para falar com D. Raquel para tratar de espaço para as oficinas e a participação de quem faria as aulas de circo e teatro.

Quando finalmente conseguimos tocar o chão de Quingoma, a impressão é de um lugar preservado, onde pouco mudou no decorrer do tempo. A estrada de terra batida, o intenso verde marcado pela mata que cerca a comunidade, as casas humildes e serenas. D. Raquel sempre receptiva nos recebeu e abriu a porta da comunidade. Falava sempre apontando onde tinha tudo o que precisávamos, e sempre contando uma história para fundamentar a narrativa. Dessa maneira ficamos conhecendo um pouco da história de Quingoma, conhecido na cidade Lauro de Freitas como reduto do Samba de Roda. Do fato de Quingoma ser um reduto quilombola, do avanço imobiliário que preocupa os seus moradores mais antigos, das dificuldades e prazeres em morarem numa região tão abastada de natureza.

Contudo, é necessário saber que quem faz a comunidade são seus moradores. Dessa maneira tivemos a oportunidade de conhecer pessoas importantes que trazem na sua bagagem a história de uma vida de trabalho e de luta para manter o respeito, a dignidade, e não deixar cair no esquecimento as tradições dos seus mais antigos moradores, repassando uma cultura forte para os quingomeiros mais novos. Por essa razão D. Raquel falou muito do projeto Fincando Raízes, que lida com a questão das manifestações culturais, onde as crianças têm aulas de capoeira, maculelê, samba de roda, cantigas populares.

Entre as pessoas que tivemos o prazer de conhecer e conversar, duas foram marcantes. A primeira pessoa foi Seu Francisco, senhor de 82 anos que ainda mantêm as suas atividades e trabalha para atender o seu povo. Ele é responsável pela construção do chafariz, que abastece a todos com água limpa. Seu Francisco conversa sobre tudo, e conta como saia no início da madrugada para vender produtos na Feira de São Joaquim, numa viagem que chegava a durar 6 horas de jegue.

Outra pessoa marcante nas andanças por Quingoma é Seu Fernando, de 62 anos, negro de estatura baixa que é conhecido pelo apelido de pajé, por seu conhecimento em folhas e ervas para chá, tratando as mazelas das pessoas a base de garrafadas de infusão. Simpático contador de histórias, percebe a mudança que aconteceu em Quingoma como uma transformação necessária para o bem estar dos seus moradores na mesma proporção que se preocupa com os caminhos que os jovens quingomeiros estão seguindo. Homem de risada fácil e uma voz com timbre forte, demonstra segurança na sua sabedoria adquirida durante seus anos. Sabe que um homem da terra, e sabe viver dela como poucos.

Assim seguia os dias de nossa convivência em Quingoma. Ás vezes era vontade pendurar uma rede em duas árvores e deitar para ver o seu cotidiano. Fazer parte dessa rotina foi importante para desmistificar a imagem que Quingoma mostra para a maioria da cidade de Lauro de Freitas como um lugar atrasado, perdido no meio do mato. Mas é bom saber que quem mora em Quingoma não se muda de lá, e de lá olha para a cidade que lhe rodeia com receio de que a paz seja invadida pela correria que toda cidade tem.
Texto : Tiago Chaves

D. RAQUEL: A GUERREIRA

Desde o primeiro dia fomos recebidos por ela: D. Raquel. Mãe de Rejane, a presidente da associação de moradores. Ela como vice presidente e integrante do grupo de samba de roda Renascer de Quingoma, nos mostrou a lucidez com que defende a terra que nasceu e as pessoas que ali vivem. A consciência do valor que tem as pessoas, a cultura e aquela terra única. 



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Video: Tiago Chaves

SEU FERNANDO: O PAJÉ
Seu Fernando é conhecido em Quingoma como Pajé devido ao seu conhecimento do uso de plantas medicinais, intuitivamente e com os mais velhos ele foi descobrindo os poderes das plantas e com isso ajudou e ainda ajuda muita gente. Além de ser um grande contador de causos.
Vídeo: Tiago Chaves 


SEU FRANCISCO: O GUARDIÃO DA ÁGUA
Seu Francisco Morador nascido e criado em Quingoma , da sabedoria de seus 82 anos nos conta um pouco de como era a vida na localidade na sua juventude. Hoje ele é o guardião da água pois, infelizmente o abastecimento ainda é muito precário e seu Francisco, toma conta, faz a manutenção e liga e desliga todas as madrugadas uma bomba que fica em um poço numa ribanceira e assim ele consegue manter um tanque cheio para que nunca a comunidade fique sem água.
Video: Tiago Chaves
Video: Tiago Chaves

NO ÚLTIMO DIA
Último dia, dia de festa, dia de saudade de tudo que foi feito, de tudo que foi trocado. Sorrisos, canções, brincadeiras, histórias, causos. Batemos nas portas e elas foram abertas. Um lugar de gente de bem, esquecido por quem deveria zelar. Aonde ainda se houve o canto dos passarinhos,carinho pros ouvidos e se acorda com o canto dos galos. Com um povo que busca um futuro melhor,  consciente de seus direitos  algumas histórias coloridas, outras cinzas que ainda não víamos e então deixaram de ser invisíveis.